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PRIMEIRO DOMINGO DA QUARESMA - ANO A

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“PIEDADE, Ó SENHOR, TENDE PIEDADE, POIS PECAMOS CONTRA VÓS”

Neste primeiro Domingo da Quaresma contemplamos Jesus e sua luta contra Satanás. Longe de ser um embate intimista a respeito meras faltas pessoais, as tentações do Senhor resumem todo drama de sua vida, que é nosso drama também: como vencer o mal que nos causa tantos sofrimentos, destruições, injustiças?

Não se trata, portanto, apenas de um dia difícil do Senhor no deserto... Trata-se de todos os dias de sua vida! Jesus vence o maligno e sua sedução desde o primeiro instante de sua encarnação. Porém, trata-se também da minha e da sua vida, que nEle, do jeito dEle, podem vencer o fracasso do mal e viver verdadeiramente. 

 

“As tentações acompanham todo o caminho de Jesus, e a narração das tentações apresenta-se como uma antecipação, na qual se condensa a luta de todo o caminho. […] Os 40 dias de jejum abrangem o drama da história, que Jesus assume em Si mesmo e suporta até ao fundo”.

(BENTO XVI, Jesus de Nazaré, pp. 57.60).

“Sereis como deuses” (Gn 1,5)

Deus cria o ser humano do barro e lhe sopra nas narinas. A vida humana não nos pertence... Viemos de Deus. Nossa origem, nossa fonte é o nosso Criador. Gênesis, capítulo 1, nos orienta a compreendermos a verdadeira ordem das coisas: Deus é o Senhor, nós “somos pó, e ao pó deveremos voltar”.

A grande tentação humana, colocada diante de nossos olhos desde o princípio pela serpente, é a de invertermos esta ordem do universo, deixando de ser quem realmente somos. “Sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal” (Gn 1,5). Esta é a tentação de origem – acompanha o ser humano desde os primórdios de sua história – mas que não está num passado longínquo apenas... Ela se apresenta também a cada um de nós hoje como fruto “atraente para os olhos e desejável para se alcançar o conhecimento” (Gn 1, 6).

É a tentação que está na origem, porque foi lá, neste longínquo passado, que a humanidade principiou sua desgraça. Naquele primeiro momento, mais existencial do que histórico, as comunidades humanas escolheram disputar entre si, concorrer para se atingir o lugar de “Deus”, ou seja, ser superiores a tudo e a todos e decidir por si mesmos o que é o bem e o mal. Quando o ser humano, criatura finita que é, escolhe tomar o posto do Criador, começa a querer ser adorado como Ele, obedecido como Ele, poderoso como Ele. Ninguém mais pode impedir-lhe de buscar a satisfação de seus gostos e interesses pessoais. Desde este primeiro momento, a humanidade escolheu organizar suas sociedades na lógica da concorrência, da disputa, do acúmulo, do medo do outro, da guerra para fazer valer os desejos particulares, da violência e da eliminação de quem quer que se imponha contra a satisfação de seus interesses egoístas. Quanta dor, quanto luto, quanto choro, quanta angústia geradas pela soberba humana, marcada por este “brilho” tentador, que há séculos tem produzido sofrimento e morte.

Esta serpente se apresenta dia a dia, a cada instante, provocando-nos a comer deste fruto. Quantas vezes muitos de nós buscamos nos sobrepujar aos demais? Quantas e quantas vezes quisemos ser adorados, louvados e obedecidos por todos? Quem nunca sentiu este desejo maldito de se sobrepujar? Pecado é isto. Este é o desejo de satanás para nós. Mais dos que simplesmente nos afastar de Deus e nos fazer cair em pequenas faltas, o desejo do reino do mal é que comamos este fruto, não apenas nos separando do Criador, mas tomando seu trono, invertendo a lógica da criação, destruindo nossas relações humanas e nossa interação com a obra do Criador.

“Vai-te embora, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás ao Senhor, teu Deus, e somente a ele prestarás culto’” (Mt 4,10)

Jesus Cristo é verdadeiro Deus, mas verdadeiro homem. E também, diante de seus olhos, a antiga serpente apresentou seu fruto. Diante dos olhos do Senhor – o único ser humano que poderia por direito se arvorar ao posto de divino – Satanás apresenta astutamente sua proposta. Já que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, porque não provar do fruto? Não seria muito mais fácil a Ele realizar grandes milagres a todo instante e conquistar a fama de superar a fome transformando pedras em pão? Não seria mais proveitoso dar um grande salto e miraculosamente adentrar o Templo de Jerusalém num voo magnífico diante das autoridades judaicas? Não seria Ele mais facilmente escutado? Não seria mais lógico organizar exércitos e dominar politicamente o mundo para eliminar toda injustiça com leis e decretos? Não seria mais simples para Jesus se Ele buscasse o trono do Império Romano? Já que Ele é Deus, não poderia Ele organizar um Império justo, conforme seu desejo e o desejo de seu Pai?

Não.

Jesus sequer escuta a voz de Satanás. Apenas o responde com gestos de humildade. O Senhor recusa radicalmente ceder às seduções do maligno. Ele vence o mal não pelo mando, nem pela sujeição ou opressão. Jesus vence o maligno, vence o pecado e seu reino de injustiças, fazendo o bem e servindo a todos. O Único que se podia arvorar como Deus, escolheu a pequenez, o serviço, a doação, a misericórdia e o perdão como caminhos para a sua vida. Jesus, mesmo tentado, não provou do veneno da antiga serpente. Ele esmagou sua cabeça escolhendo fazer-se nada ao invés de clamar pelos seus direitos divinos. E a Cruz é a prova mais radical, perene e espantosa desta sua decisão.

“Eu reconheço toda a minha iniquidade” (Sl 50,5)

Neste início de caminhada quaresmal, o mesmo Senhor que venceu o maligno, nos convida a vencer com Ele. E a primeira atitude nossa deve ser a de reconhecermos nossa nudez, enxergando em nós o quanto temos errado. Ele, nosso Deus Vencedor, nos propõe o mesmo que nos propôs ardilmente a antiga serpente: “Ser como Deus”. Porém, agora, ser divino implica em seguir outra proposta. Agora, para nós, Deus não está num trono de poder cheio de ouro. Não. Ele está pendurado no madeiro da cruz. Deus, agora, fez-se nada, a fim de que a sedução da serpente não mais pudesse nos enganar. Nem mesmo Deus quer ser espetacular, nem mesmo Ele quer estar sob a luz dos holofotes. Ele mesmo se fez nosso servo porque lavou nossos pés nesta ceia que celebramos e derramou seu sangue na cruz que agora contemplamos.

Você quer ser como Deus? Seja de fato como Ele. Esmague você também a cabeça da serpente. Hoje, você, eu, nós todos somos convidados a expulsar Satanás de nosso meio. Seus ardis querem nos dissuadir a sermos o que não somos: onipotentes, onicientes e onipresentes... Mas somos pó. E Deus mesmo quis ser pó... Ele se faz nada. Ele escolhe hoje ser Pão e Vinho nesta ceia, que nos convoca a sermos simplesmente nós mesmos: irmãos e irmãs nEle, nosso único Senhor.

Jovem Sentinela da Manhã: pelas práticas quaresmais do jejum, caridade e oração – práticas que evidenciam nossa fragilidade – você é chamado a iniciar um novo mundo: a Civilização de Amor, fundada e inaugurada por Jesus. Diga não à autopromoção. Nós não apontamos para nós mesmos. Não pregamos nossos grupos, por mais lindos que sejam... Não anunciamos nossas estruturas... Não queremos ser o centro das atenções... Não buscamos o ter, o poder e o prazer a todo o custo... Deus nos quer realmente divinos do jeito que seu Filho foi divino... Nosso lugar não é o palco... Deus é quem devia lá estar, e por escolha livre decidiu nos servir! Deus quer-nos também servidores do mundo, e não num palco para o mundo. O ser humano vive da Palavra DELE, e não de si mesmo.

Reconheçamos hoje nossa iniquidade e recorramos a Ele, para que, do seu jeito, o Senhor restaure nossa face desfigurada pelo pecado. E recriando-nos em si – na Páscoa que logo celebraremos – sopre novamente em nossas narinas seu Espírito e nos devolva a vida – a verdadeira VIDA que nos vem somente DELE, o único a quem devem ser dadas toda honra, toda glória e todo poder pelos séculos dos séculos. Amém!

Em Cristo!

PE. ALEXSANDER CORDEIRO LOPES
Diretor Espiritual do Ministério Jovem da RCC Brasil

Twitter: @pealexcordeiro