Primeira Semana da Paixão do Senhor: "E Jesus chorou!" (Jo 11,35)
No mesmo horário em que realizava minha Leitura Orante para preparação da presente reflexão, um jovem de 23 anos entrava em uma escola e assassinava 12 crianças... Horrorizado, repensei toda minha homilia deste final de semana. Descartei o que havia escrito... Não fazia mais sentido.
Neste Domingo, o primeiro do tempo da Paixão do Senhor, Jesus chora diante do túmulo de seu amigo, Lázaro. Mas seu choro não ficou lá no passado. Ele atravessou a história e chegou até o bairro do Realengo, no Rio de Janeiro. Jesus mais uma vez chorou... Chorou ao se deparar com a morte violenta de seus pequenos amigos. Chorou diante das situações que fizeram um jovem desacreditar da vida e levar consigo tantas outras pequenas vidas... Jesus chora diante de um mundo que perdeu a referência de valores e possibilita o surgimento desse tipo de morte... A morte de sentido que mata primeiro a alma e depois o corpo.
Dois tipos de morte
“A morte e a morada subterrânea foram lançadas no tanque de fogo. A segunda morte é esta: o tanque de fogo.” (Ap 20,14)
No livro do Apocalipse, São João nos ensina que há dois tipos de morte: a primeira – a atingir todos, e a segunda (Ap 2,11; 20,6, 20,14; 21,8), que deverá atingir apenas alguns... O que significa esta distinção? Podemos supor que o autor sagrado queira nos dizer que aPrimeira Morte seria esta que experimentamos aqui, a natural, pela qual todos nós deveremos passar; e a Segunda Morte seria algo mais radical, uma morte da morte... A morte total.
A primeira morte não precisa ser um ato apenas negativo e doloroso. Ela é um momento da vida humana, e como tal pode ser vividabem. Na verdade, ela é um momento da vida! Pensemos numa pessoa que amou durante anos a sua família... Cometeu seus erros, mas pode corrigir-se, despedir-se dos seus e simplesmente partir. A separação decerto é dolorosa, mas não desesperançosa. Resta a gratidão, restam as relações firmadas, que jamais poderão ser apagadas. A pessoa simplesmente não cabe mais no corpo frágil. Ela é mais que aquela “carne”... Para continuar a amar precisará se desprender, ressuscitar, libertar-se das teias que a limitam.
Na verdade, amar é morrer. Quando amamos esquecemos de nós e nos entregamos. Durante a vida toda, morremos aos poucos, porque amamos aos poucos a Deus, e ao próximo. “Na morte o ser humano entrega-se inteiramente nas mãos de Deus, ao qual já se entregou, pedaço por pedaço, numa vida engajada em amor” (NOCKE, F. Escatologia. In: SCHNEIDER, T. (org.); HILBERATH, B. et al. Manual de Dogmática. v. II. Petrópolis: Vozes, 2000, p. 405.). Foi assim com Jesus. Mesmo sendo vítima de um julgamento e condenação injustas, amou até o fim, e entregou-se livremente, num ato de amor supremo, pelos que amava – cada um de nós.
A primeira morte leva embora o corpo físico, que é canal das relações de amor nesta terra, mas não leva embora a alma – ou seja, o amor com que nos amamos, nossas relações pessoais, nossa gratidão pelos impactos positivos do outro sobre nós.
Foi horrível o que aconteceu no Rio de Janeiro... Aquelas crianças foram arrancadas brutalmente de seus pais e amigos. Não foi umaentrega livre. Foram ceifadas... Mas o pranto e desespero daquelas mães e pais, que nos fizeram todos chorar, nos fazem pensar no FORTE AMOR com o qual aqueles pequeninos eram amados. Isso ninguém poderá roubar. Aquelas crianças vivem para sempre no coração dolorido de seus pais, amigos. Vivem para sempre no coração de Deus, como vítimas inocentes, ceifadas cedo por um Herodes brutal, do qual o Wellington Menezes de Oliveira (o assassino) é apenas uma figura pálida. O assassino real é uma morte pior que a primeira... Uma morte que já acenamos acima. A Segunda Morte.
Este tipo de morte não leva o corpo... leva primeiro a alma, e só depois apresenta seus impactos sobre o físico. A Segunda Morte é aquela que mata o sentido da vida. Ao pensar no Wellington, penso na quantidade pessoas que já foram acometidas por essa morte em nosso mundo. Não sonham mais, não amam mais, não mais cultivam relações. Fecham-se em si mesmas e morrem.
Um colega de turma do Wellington assim afirmou a respeito dele: “A gente nunca imaginava que estava criando um monstro dentro de nossa sociedade”. Pois é... E estávamos. E o pior é que isto está acontecendo, aos montes... Uma sociedade que não valoriza a partilha, mas a competição; e que prioriza o ter em lugar do ser; que supervaloriza o estético antes do ético só podia resultar nisto. Não sei se posso julgar o jovem Wellington, ou se devo primeiro pensar em como eu pude contribuir para que o Wellington surgisse. Ele é fruto deste nosso mundo... Do mundo que escolheu o pecado, a desunião, a ganância em primeiro lugar. Ele é fruto de um mundo que há séculos escolheu querer “Ser como Deus” tal qual Adão e Eva no Paraíso, deixando de lado o Criador e colocando-se no lugar dEle. “Os tíbios, os infiéis, os depravados, os homicidas, os impuros, os maléficos, os idólatras e todos os mentirosos terão como quinhão o tanque ardente de fogo e enxofre, a segunda morte” (Ap 21,8).
A Segunda Morte é tão séria, que macula a Primeira Morte, e a faz ser vivida com o horror testemunhado esta semana no Rio. Quantos massacres em nosso mundo provocados pela morte da alma? Quanto sangue derramado? Quanta guerra? Lembremo-nos o que ocorre estes dias nas guerras do Oriente Médio, ou aqueles que morrem vítimas da Natureza destruída pela ganância destruidora do Maio Ambiente, ou ainda as milhares de crianças assassinadas no ventre por suas próprias mães. E como esquecer a número horrível de jovens vítimas da violência, das drogas, do transito e do suicídio? A Segunda Morte mata a alma, mas também fere o corpo e impede que a vida se desenvolva e seja plena. Gera a dor e o pranto em nosso mundo contemporâneo, do nosso lado, no quintal de nossas casas, todo dia, toda hora, em tantos e tantos “Realengos” no Brasil e mundo afora.
Nossa sociedade caminha como se o pecado fosse uma “coisinha de padres”, uma “bobeirinha imposta pela Igreja”... Mal se percebe as consequências funestas dele. Mal percebemos que temos criado mais e mais monstros em nossa sociedade. Monstros que são primeiro vítimas e depois vitimadores. Muitos dos nossos contemporâneos estão já mortos nas drogas, no crime, na depressão, na violência, na dor, no isolamento.
Não podemos descansar... Há urgência da Civilização do Amor
“Senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não teria morrido” (Jo 11,21 e 32)
A dor das irmãs Marta e Maria, chorosas por perderem seu querido irmão, também atravessou os séculos e tornou-se nosso lamento esta semana:
“Senhor, se tivésseis estado aqui, nossos irmãozinhos não teriam morrido. Mas infelizmente, Senhor, nós te mandamos embora de nosso mundo. Nós te excluímos de nossas escolas, de nossos bairros, de nossas casas, de nossas famílias, de nossos governos, de nossas empresas, de nossos corações. Senhor, se tivésseis estado conosco, se tivéssemos escutado vossa voz, teríamos amado mais, vivido mais e matado menos, excluído menos, criado menos monstros entre nós. Misericórdia, Senhor. Curai-nos, ressuscitai-nos”.
Para além deste necessário lamento, é preciso ainda fazer algo a mais. Desejamos também que a vitória de Cristo transpasse os séculos e chegue até nós. Este horror visto no Rio de Janeiro precisa tornar-se princípio de revisão de vida pessoal e social. O Sangue daqueles inocentes não pode ter sido em vão. Aquele sangue, visto por nós em nossos televisores, grita da terra clamando por justiça. Não a dos homens, mas a de Deus. Justiça que nos faz revisar nossas vidas e nos chama a sairmos do túmulo da Segunda Morte enquanto há tempo. Porque não pode permanecer na primeira morte quem já venceu a segunda. É tempo de conversão verdadeira. Não de brincadeirinha... Conversão MESMO, pessoal e social. Mudança de corações e de mundo.
“Cres isto?”(Jo 11,26b) - pergunta Jesus à Marta e a nós hoje. Cremos de fato? Nossa vida é realmente impactada e MUDADA pela força do Evangelho? Até quando vamos ter que chorar nossas crianças mortas como consequência da morte da alma? Cremos de fato na Civilização do Amor?
Jovem sentinela... Não há mais tempo para o sono. Há muitos Wellingtons que precisam ser amados, e não há outro a não ser você para ir ao encontro deles. Você precisa entender que o anúncio da boa nova de Jesus Cristo é questão de vida ou morte pra muita gente. Não olhe para o lado, não espere mais tragédias como essa acontecerem. O Senhor está entre nós, e deseja ir com você às sepulturas lacradas e que cheiram mal em nossas sociedades. Corações sepultados no egoísmo. Sua voz, caro jovem, precisa ser emprestada a Jesus para que Ele esteja em todos os cantos e não mais haja tanta dor e sofrimento. Por meio de sua garganta, o ressuscitado deseja gritar:
“Lázaro, vem para fora (Jo 11,45), saia deste teu sepulcro fétido... Há um mundo muito mais belo do que o que o pecado o tem oferecido. Chega de morte, vem para a vida”.
“Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno. E a luz perpétua as ilumine. Descansem em paz. Amém.”

















