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Missa da Ceia do Senhor - Ano A

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“SE EU NÃO TE LAVAR OS PÉS, NÃO TERÁS PARTE COMIGO”
(Jo 13,8b)

O Tríduo Pascal é a celebração central de nossa fé cristã, a ocorrer numa sequência de três dias, mas com um corpo unitário, de tal forma que, em três momentos, celebramos o mesmo e único mistério da vida, paixão, morte e ressurreição de nosso Senhor e Salvador, que é também nosso mistério de morte para o pecado e renascimento para a vida nova de seu reino pelo Batismo.

A Quinta-Feira Santa recorda a instituição da Eucaristia, do Mandamento do Amor, do Sacerdócio e o Lava-Pés, em outras palavras, celebra-se a dimensão ritual do Mistério Pascal, realizado na Eucaristia. Na Sexta-Feira se recorda a memória do Senhor Morto na Cruz para nossa Salvação, no Sábado o Senhor sepultado e no Domingo (desde a Vigília) o Senhor Ressuscitado.

Você, jovem, é convidado por Deus a mergulhar no mistério de Cristo, a renovar seus compromissos com Ele e a partilhar de sua morte para poder gozar de sua ressurreição. Celebramos o sentido de nossas vidas, a razão de nossas existências e nossa entrega total a Ele e seu plano de amor e salvação.


“Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim.” (Jo 13,1b)

É Quinta-Feira... O dia em que o Senhor,  “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”.
celebramos a memória da manifestação histórica do amor de Deus por nós. Um Deus que ama de fato! Não apenas
por dizer... Mas Ele  realmente ama! Amou os Israelitas quando os retirou do Egito. E marcou este amor com um
banquete de partilha desta alegria: a Páscoa Judaica! Nela os judeus celebravam o Deus que se recordou deles, que
baixou dos céus e os libertou das mãos do faraó. Para eles não seria possível tal libertação, mas Deus a fez com mão
poderosa. E gratuitamente...
Lavou nossos pés...
Mas ainda era pouco... Amar até o fim significava para Deus ir mais além, descer até mais embaixo. Por isso, Ele
marcou logo um outro momento, em que mostraria seu amor, não mais com poder, mas na simplicidade e até na
humilhação! Ele quis vir até nós, nascer como criança e nos amar aqui, de pertinho, na nossa humanidade. Em Jesus
chegou a hora de Deus nos amar até o extremo, lavando nossos pés.
Imaginemos a loucura... Deus mesmo, em sua grandeza, diante de nós lavando nossos pés...  Para os povos
orientais o Mestre era alguém a quem sempre se devia reverência e subserviência.  O subordinado sempre devia
respeito ao superior. Isso no plano humano! A Deus se devia tanto respeito que nem ao menos seu nome devia ser
pronunciado! A grandeza de Deus fazia com que os homens se afastassem dele com temor.
Lavou nossos pés...
Jesus havia se mostrado o GRANDE MESTRE. Seus milagres, seus discursos, sua nobreza de atitudes, sua vivência
das virtudes, TUDO NELE INDICAVA A SUA GRANDE DIGNIDADE  – SUA NATUREZA DIVINA. Ele deveria ser servido,
MAS ESCOLHEU SERVIR. ELE LAVOU OS NOSSOS PÉS. Lavou-os simbolicamente na ceia, porque desde o início ele já
nos havia lavado... Lavou-nos com suas palavras, com seu exemplo, com sua coragem, com seu amor. Sua vida foi um
“lava-pés”, porque Ele veio para servir, e não para ser servido. Um Deus que se faz servo  – eis  a loucura do
cristianismo... Este amor imenso de um Deus que desce tão baixo para nos salvar  foi marcado também por uma ceia – assim
como na antiga páscoa judaica. Ele quis se fazer pequeno, humilhado nas espécies de pão e vinho. Fez-se nosso
alimento, perpetuando o seu  “fazer-se nada” pelos séculos, em cada Eucaristia celebrada. Ele submete-se a ser
alimento de todos. Alimenta os santos e os pecadores, os fiéis e os incrédulos, piedosos e profanadores... Digna-se
ser manipulado pelos homens. Digna-se ser mastigado, digerido! Não havia melhor maneira de se unir a nós tão
profundamente, tão intimamente, tão corporalmente! Não perdemos em nada para os apóstolos – temo-lo conosco,
como nosso Pão, como nossa Vida. Eis seu grande amor!


“Não terás parte comigo”... (Jo 13,8b)

Pedro não quis que seu Mestre lhe lavasse os pés. Mas Jesus insiste... Para ter parte com Ele, para ser de seu
grupo, para ser cristão, para ingressar no Reino é preciso deixar que Deus nos lave os pés. Ter parte com o Cristo é
ser seu discípulo, ser seu seguidor, participar da graça que Deus comunica à humanidade. Deixar que o Cristo nos lave
os pés é deixar que sejamos salvos por ele. Deixar que Ele comunique sua graça pela Eucaristia, pela palavra, pelo
amor dedicado que nos faz seus seguidores no mandamento do amor.
Quantos são os que não querem deixar o Cristo lhes lavar os pés! Quantos não conseguem compreender como
um Deus pode ser servidor, dar-se a nós na  pequenez da  Eucaristia,  morrendo para nos ver vivos... Pedro não
entendeu porque esperava um Deus dominador. Mas o Cristo inverte essa lógica: “Quem quiser ser o primeiro, seja o
último de todos e o servo de todos”. Ele se fez último dos últimos, por isso é o Primeiro. Não entender essa lógica
nova de Jesus e não deixar que Deus nos lave os pés é não aceitar seu amor, e, em última instância, não querer amar
também.
E talvez muitos de nós não o queiramos mesmo... Fugimos da leitura da Palavra, participamos dos sacramentos
de modo superficial, desconhecemos que o amor é a primeira obrigação do Cristão... Não queremos que Ele nos lave
os pés, não queremos que Deus se faça servo, porque não queremos fazer como Ele. Estamos muito acostumados a
procurar ser servidos e a criar subservientes, mas não queremos servir... Por isso não podemos conceber um Deus
que nos lave os pés. Muitos ainda somos como Pedro...


“Senhor, então lava não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça” (Jo 13,9)

Como Pedro, somos todos chamados à conversão interior e a entender que somente quando doamos a vida,
realmente nós a conquistamos. “Quem perde a sua vida por mim, a encontrará”, diz-nos o Senhor. Ele perdeu sua
vida por nós, deu-se aos pouquinhos durante os 33 anos de sua vida pública e a entregou em definitivo no seu
mistério pascal, hoje celebrado.
Por isso, hoje mesmo, Ele nos dá o seu novo mandamento: “Amai-vos uns aos outros COMO EU VOS AMEI”. Seu
amor é gratuito e chega às raias da loucura da Cruz... E não exige nada de nós. Apenas pede que amemos como Ele.
Ele nos ensinou o segredo da vida, o caminho da felicidade. Quem dá a vida pelos outros encontra a razão de viver.
Quem vive para si mesmo, egoisticamente, não pode ser feliz, pois somos feitos para o outro.  O amor é o grande
sacramento da presença do Cristo na terra. Ser discípulo dele, muito mais do que cumprir ritos ou fazer parte de um
grupo, é viver como ele viveu. Se quisermos segui-lo, devemos amar.
Não tenhamos medo de ser amados por Ele, para que nEle possamos amar aos que nos rodeiam. Queiramos nós
ter parte com Ele. Deixemos que ele banhe nossos pés em seu sangue. Deixemos que ele nos lave em seu amor para
que tenhamos parte com Ele: a vida em abundância prometida para quem ama, para quem lava os pés dos irmãos,
para quem dá sua vida pelos amigos. Ele se entrega todo em nossas mãos para que nós também possamos amar
como Ele, até o fim.

Pe. Alexssander Cordeiro

Assessor Espiritual do Ministério Jovem da RCC Brasil.