
Foi divulgada esta manhã a Mensagem do papa para a Quaresma 2009. Participaram da apresentação, na Sala de Imprensa da Santa Sé, o Card. Paul Josef Cordes, Presidente do Pontifício Conselho “Cor Unum”, Mons. Karel Kasteel, Secretário, e Mons. Giampietro Dal Toso, Vice-Secretário; e a Sra. Josette Sheeran, Diretora Executiva do Programa Mundial de Alimentos da ONU.
Publicamos a seguir o texto integral da Mensagem, na versão oficial traduzida pela Secretaria de Estado do Vaticano. O tema da Mensagem deste ano é "Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome".
"Queridos irmãos e irmãs!
No início da Quaresma, que constitui um
caminho de treino espiritual mais intenso, a Liturgia propõe-nos três
práticas penitenciais muito queridas à tradição bíblica e cristã – a
oração, a esmola, o jejum – a fim de nos predispormos para celebrar
melhor a Páscoa e deste modo fazer experiência do poder de Deus que,
como ouviremos na Vigília pascal, «derrota o mal, lava as culpas,
restitui a inocência aos pecadores, a alegria aos aflitos. Dissipa o
ódio, domina a insensibilidade dos poderosos, promove a concórdia e a
paz» (Hino pascal). Na habitual Mensagem quaresmal, gostaria de
reflectir este ano em particular sobre o valor e o sentido do jejum. De
facto a Quaresma traz à mente os quarenta dias de jejum vividos pelo
Senhor no deserto antes de empreender a sua missão pública. Lemos no
Evangelho: «O Espírito conduziu Jesus ao deserto a fim de ser tentado
pelo demónio. Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por
fim, teve fome» (Mt 4, 1-2). Como Moisés antes de receber as Tábuas da
Lei (cf. Êx 34, 28), como Elias antes de encontrar o Senhor no monte
Horeb (cf. 1 Rs 19, 8), assim Jesus rezando e jejuando se preparou para
a sua missão, cujo início foi um duro confronto com o tentador.
Podemos
perguntar que valor e que sentido tem para nós, cristãos, privar-nos de
algo que seria em si bom e útil para o nosso sustento. As Sagradas
Escrituras e toda a tradição cristã ensinam que o jejum é de grande
ajuda para evitar o pecado e tudo o que a ele induz. Por isto, na
história da salvação é frequente o convite a jejuar. Já nas primeiras
páginas da Sagrada Escritura o Senhor comanda que o homem se abstenha
de comer o fruto proibido: «Podes comer o fruto de todas as árvores do
jardim; mas não comas o da árvore da ciência do bem e do mal, porque,
no dia em que o comeres, certamente morrerás» (Gn 2, 16-17). Comentando
a ordem divina, São Basílio observa que «o jejum foi ordenado no
Paraíso», e «o primeiro mandamento neste sentido foi dado a Adão».
Portanto, ele conclui: «O “não comas” e, portanto, a lei do jejum e da
abstinência» (cf. Sermo de jejunio: PG 31, 163, 98). Dado que todos
estamos entorpecidos pelo pecado e pelas suas consequências, o jejum
é-nos oferecido como um meio para restabelecer a amizade com o Senhor.
Assim fez Esdras antes da viagem de regresso do exílio à Terra
Prometida, convidando o povo reunido a jejuar «para nos humilhar – diz
– diante do nosso Deus» (8, 21). O Onipotente ouviu a sua prece e
garantiu os seus favores e a sua protecção. O mesmo fizeram os
habitantes de Ninive que, sensíveis ao apelo de Jonas ao
arrependimento, proclamaram, como testemunho da sua sinceridade, um
jejum dizendo: «Quem sabe se Deus não Se arrependerá, e acalmará o
ardor da Sua ira, de modo que não pereçamos?» (3, 9). Também então Deus
viu as suas obras e os poupou.
No Novo Testamento, Jesus ressalta a
razão profunda do jejum, condenando a atitude dos fariseus, os quais
observaram escrupulosamente as prescrições impostas pela lei, mas o seu
coração estava distante de Deus. O verdadeiro jejum, repete também
noutras partes o Mestre divino, é antes cumprir a vontade do Pai
celeste, o qual «vê no oculto, recompensar-te-á» (Mt 6, 18). Ele
próprio dá o exemplo respondendo a satanás, no final dos 40 dias
transcorridos no deserto, que «nem só de pão vive o homem, mas de toda
a palavra que sai da boca de Deus» (Mt 4, 4). O verdadeiro jejum
finaliza-se portanto a comer o «verdadeiro alimento», que é fazer a
vontade do Pai (cf. Jo 4, 34). Portanto, se Adão desobedeceu ao
mandamento do Senhor «de não comer o fruto da árvore da ciência do bem
e do mal», com o jejum o crente deseja submeter-se humildemente a Deus,
confiando na sua bondade e misericórdia.
Encontramos a prática do
jejum muito presente na primeira comunidade cristã (cf. Act 13, 3; 14,
22; 27, 21; 2 Cor 6, 5). Também os Padres da Igreja falam da força do
jejum, capaz de impedir o pecado, de reprimir os desejos do «velho
Adão», e de abrir no coração do crente o caminho para Deus. O jejum é
também uma prática frequente e recomendada pelos santos de todas as
épocas. Escreve São Pedro Crisólogo: «O jejum é a alma da oração e a
misericórdia é a vida do jejum, portanto quem reza jejue. Quem jejua
tenha misericórdia. Quem, ao pedir, deseja ser atendido, atenda quem a
ele se dirige. Quem quer encontrar aberto em seu benefício o coração de
Deus não feche o seu a quem o suplica» (Sermo 43; PL 52, 320.332).
Nos
nossos dias, a prática do jejum parece ter perdido um pouco do seu
valor espiritual e ter adquirido antes, numa cultura marcada pela busca
da satisfação material, o valor de uma medida terapêutica para a cura
do próprio corpo. Jejuar sem dúvida é bom para o bem-estar, mas para os
crentes é em primeiro lugar uma «terapia» para curar tudo o que os
impede de se conformarem com a vontade de Deus. Na Constituição
apostólica Paenitemini de 1966, o servo de Deus Paulo VI reconhecia a
necessidade de colocar o jejum no contexto da chamada de cada cristão a
«não viver mais para si mesmo, mas para aquele que o amou e se entregou
a si por ele, e... também a viver pelos irmãos» (Cf. Cap. I). A
Quaresma poderia ser uma ocasião oportuna para retomar as normas
contidas na citada Constituição apostólica, valorizando o significado
autêntico e perene desta antiga prática penitencial, que pode
ajudar-nos a mortificar o nosso egoísmo e a abrir o coração ao amor de
Deus e do próximo, primeiro e máximo mandamento da nova Lei e compêndio
de todo o Evangelho (cf. Mt 22, 34-40).
A prática fiel do jejum
contribui ainda para conferir unidade à pessoa, corpo e alma,
ajudando-a a evitar o pecado e a crescer na intimidade com o Senhor.
Santo Agostinho, que conhecia bem as próprias inclinações negativas e
as definia «nó complicado e emaranhado» (Confissões, II, 10.18), no seu
tratado A utilidade do jejum, escrevia: «Certamente é um suplício que
me inflijo, mas para que Ele me perdoe; castigo-me por mim mesmo para
que Ele me ajude, para aprazer aos seus olhos, para alcançar o agrado
da sua doçura» (Sermo 400, 3, 3: PL 40, 708). Privar-se do sustento
material que alimenta o corpo facilita uma ulterior disposição para
ouvir Cristo e para se alimentar da sua palavra de salvação. Com o
jejum e com a oração permitimos que Ele venha saciar a fome mais
profunda que vivemos no nosso íntimo: a fome e a sede de Deus.
Ao
mesmo tempo, o jejum ajuda-nos a tomar consciência da situação na qual
vivem tantos irmãos nossos. Na sua Primeira Carta São João admoesta:
«Aquele que tiver bens deste mundo e vir o seu irmão sofrer
necessidade, mas lhe fechar o seu coração, como estará nele o amor de
Deus?» (3, 17). Jejuar voluntariamente ajuda-nos a cultivar o estilo do
Bom Samaritano, que se inclina e socorre o irmão que sofre (cf. Enc.
Deus caritas est, 15). Escolhendo livremente privar-nos de algo para
ajudar os outros, mostramos concretamente que o próximo em dificuldade
não nos é indiferente. Precisamente para manter viva esta atitude de
acolhimento e de atenção para com os irmãos, encorajo as paróquias e
todas as outras comunidades a intensificar na Quaresma a prática do
jejum pessoal e comunitário, cultivando de igual modo a escuta da
Palavra de Deus, a oração e a esmola. Foi este, desde o início o estilo
da comunidade cristã, na qual eram feitas colectas especiais (cf. 2 Cor
8-9; Rm 15, 25-27), e os irmãos eram convidados a dar aos pobres
quanto, graças ao jejum, tinham poupado (cf. Didascalia Ap., V, 20,
18). Também hoje esta prática deve ser redescoberta e encorajada,
sobretudo durante o tempo litúrgico quaresmal.
De quanto disse
sobressai com grande clareza que o jejum representa uma prática
ascética importante, uma arma espiritual para lutar contra qualquer
eventual apego desordenado a nós mesmos. Privar-se voluntariamente do
prazer dos alimentos e de outros bens materiais, ajuda o discípulo de
Cristo a controlar os apetites da natureza fragilizada pela culpa da
origem, cujos efeitos negativos atingem toda a personalidade humana.
Exorta oportunamente um antigo hino litúrgico quaresmal: «Utamur ergo
parcius, / verbis, cibis et potibus, / somno, iocis et arcitius /
perstemus in custodia – Usemos de modo mais sóbrio palavras, alimentos,
bebidas, sono e jogos, e permaneçamos mais atentamente vigilantes».
Queridos
irmãos e irmãos, considerando bem, o jejum tem como sua finalidade
última ajudar cada um de nós, como escrevia o Servo de Deus Papa João
Paulo II, a fazer dom total de si a Deus (cf. Enc. Veritatis splendor,
21). A Quaresma seja portanto valorizada em cada família e em cada
comunidade cristã para afastar tudo o que distrai o espírito e para
intensificar o que alimenta a alma abrindo-a ao amor de Deus e do
próximo. Penso em particular num maior compromisso na oração, na lectio
divina, no recurso ao Sacramento da Reconciliação e na participação
activa na Eucaristia, sobretudo na Santa Missa dominical. Com esta
disposição interior entremos no clima penitencial da Quaresma.
Acompanhe-nos a Bem-Aventurada Virgem Maria, Causa nostrae laetitiae, e
ampare-nos no sforço de libertar o nosso coração da escravidão do
pecado para o tornar cada vez mais «tabernáculo vivo de Deus». Com
estes votos, ao garantir a minha oração para que cada crente e
comunidade eclesial percorra um proveitoso itinerário quaresmal,
concedo de coração a todos a Bênção Apostólica".
Vaticano, 11 de Dezembro de 2008.
Benedictus PP. XVI

















